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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Da cegonha ao sexo

Da cegonha ao sexo
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Eram duas crianças de riso natural. Inocentes, as mãos se enlaçavam. Eram, na hora que tinham, felizes, e não havia meios de não o serem, afinal eram crianças, tinham com elas suas infâncias, até então seu único passado e mais provável destino.
Há alguns passos estava o adulto. A gente grande que lhes era entre todas, a favorita. E os passos, sem que se pudesse contar, faziam-se cada vez menores. Se antes eram poucos agora se reduziam ainda mais. De um lado, nas alturas, era visível a pressa. Já do outro, quase que preso ao chão, nada além do deslumbre, fascínio e encantamento. Abaixo se alargava o riso que acima já se escondera há tempos. Nas mentes menores, mil desejos, que na maior cediam às obrigações. Eis que passa, como calafrio, o adulto pelos pequenos. Nada notara daquela infantilidade, como que ignorando a infância que um dia teve.
E há de ser tudo assim mesmo. Os anos que nos pesam na face nos pesam também nos sonhos, anseios, prioridades e reflexões.
Eis então que paramos, orgulhosos desses anos. Paramos a nos notar, a percebermos que a dor era muito menor quando podíamos lavá-la em pranto no colo de nossas mães.
Nos tocamos que as horas eram muito mais interessantes quando não as contávamos.
Notamos que economizávamos um tempão ao limparmos o nariz com a manga direita da blusa. Blusa que você mesmo escolheu, e não o mundo. Mundo que não passa da pracinha da esquina, mas que ainda assim é o maior e melhor do mundo.
Atentamos para o fato de que era muito mais legal quando víamos um “bichinho” ao invés de um artrópode pertencente à classe dos insetos.
Vemos que nossos inimigos da escola eram, na verdade, grandes companheiros se os compararmos aos nossos atuais colegas de trabalho.
Competir a um balanço era muito mais saudável que concorrer a um cargo na empresa ou brigar por uma vaga no estacionamento.
As histórias que nos eram contadas eram muito mais divertidas àquelas que os jornais nos trazem agora.
Sentimos que a bola torna-se chata quando transformada em esfera, e nos impressionamos ao descobrir que os homens também choram, até mais que as mulheres, ou ainda que só choram de verdade por causa de uma mulher.
Era muito mais prazeroso estudar o perfume e as cores das flores, do que ter de lhes analisar os mecanismos de reprodução. Reprodução esta que tirou o lugar da sementinha e da cegonha.
Confessamos que não era bom temer o bicho-papão, mas recear das pessoas que convivem conosco é, definitivamente, muito pior.
Lembramo-nos da felicidade que sentíamos ao saber que 1 maçã + 1 laranja = 1 piquenique com os amigos, e a comparamos com a indiferença de saber que o mesmo cálculo tem como resposta apenas 2 frutas, em geral transgênicas.
Desvendamos que um grito da mãe ou uma ralhada do pai, ainda que ruins, eram muito melhores do que a indiferença da pessoa que você mais ama no mundo.
Ao final, chegamos à triste conclusão de que fomos desencantados por nós mesmos. Na ansiedade de poder dirigir, beber, namorar, esquecemos da nossa criança. E agora ela nos fita encantada, e nós, nem para um beijo paramos.
Os adultos fazem de tudo para abandonar suas infâncias. Criam versões fajutas para o esconde-esconde e o pega-pega; vêem seus filhos como algo que têm, e não como aquilo que já foram; fazem questão de negar o Papai-Noel e o Coelhinho da Páscoa, além de achar tudo muito mais fácil do que roubar o doce de uma criança.
Chorem minhas crianças! Chorem porque um dia vocês serão exatamente assim, nem melhores nem piores. Verdadeiros monstros!
Neste momento, tudo o que mais quero é alcançar a mão à minha criança, que me olha e me pede com esse olhar.
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O Guardador de Rebanhos - 28/07/09

domingo, 16 de setembro de 2007

O Pequeno Príncipe

Hoje, dotado de incalculável sabedoria, dediquei parte de meu dia à releitura da obra "O Pequeno Príncipe", do genial Antoine de Saint-Exupéry. Na semana que passou, assistindo ao Jornal Nacional, acompanhei a reportagem referente à XIII Bienal do Livro do Rio de Janeiro, onde ocorreu o "lançamento" de uma versão monumental da famosa obra do escritor francês. O livro tem dois metros de altura por um metro e meio de largura e 128 páginas, fato que confere ao Pequeno Príncipe um lugar no Guinness Book, como o maior livro publicado no mundo. Passada a surpresa das dimensões, recordei a primeira vez em que li O Pequeno Príncipe.
Era uma criança (pois infância sem O Pequeno Príncipe e Meu Pé de Laranja Lima não é infância), e em meu mundo todo ingênuo e infantil, espreitava cada paço daquele jovenzinho pelos diversos mundos em que andava. Para mim, aquilo era apenas diversão, curiosidade. Mas quando me torno "gente grande" percebo que parte do meu conhecimento não-efêmero adquiri ao folhar as páginas daquele livro aparentemente infantil.
Quantas rosas cativei e quantas outras deixei que partissem sem dar-lhes sequer um olhar. Quantas raposas que me cruzaram o caminho e quantos mundos diferentes visitei e ainda tenho a conhecer. E tudo não passa de valores. Valores que nós, "gente grande", no orgulho de todos os nossos anos, esquecemos de preservar. Cada página folhada daquele livro, independente do tamanho, tem o poder de tocar e engrandecer aquele que a lê.
E hoje eu penso em como fui burro ao deixar todas aquelas lições lá, fechadas junto ao livro da minha infância.
Penso alto, como criança. Penso no mundo maravilhoso que teríamos se cada pessoa que lesse O Pequeno Príncipe colhesse aquela rosa solitária, cativasse a raposa não menos sozinha.
E não há momento melhor para rever esses valores. Devemos aproveitar o relançamento da obra em tamanho colossal para relançar também as virtudes, os conselhos, as morais que existem naquelas folhas.
Gostaria, agora, de compartilhar com você, leitor, um pouco da felicidade de minha infância. Felicidade que, após anos, consigo reviver.




Trecho do capítulo XXI:

"Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar."

Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Dança comigo

A pedidos, dedico esta postagem ao texto vencedor do concurso promovido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Santiago (SMEC) na categoria prosa - Ensino Médio, com a temática "Ética planetária: consciência em humanizar", em comemoração à Semana da Pátria. Gostaria também de pedir ao leitor que não leia meu texto, e sim o pense. Minhas palavras não são escritas para enfeitar, eu quero que elas digam!



Dança comigo

O que vemos, de mãos desenlaçadas, são esperanças desbotadas, velhas quimeras que, mesmo fatigadas, ousam, num último esforço, remar contra a corrente de um rio já poluído por nossa estupidez. São sonhos desestimulados que pairam num céu deserto, que outrora abrigara brancas pombas e agora é manchado pelo negror da ignorância de nossas ações. Nós, com as mãos ainda desenlaçadas, assistimos tudo por sobre a corda bamba, na iminência de cair no abismo criado por nossas atitudes, enquanto o mundo nos fita, esperando que, de mãos dadas, façamos juntos, aquilo que é impossível a um só.
Fazendo uso de tamanha ganância e irracionalidade, acabamos por privar as pessoas de seus direitos inalienáveis que lhes permitem sonhar, viver e desenvolver-se. Devemos respeito à natureza e aos outros, ignorando origem étnica, sexo, posição social ou sistema de crença, fazendo-se valer apenas da cooperação como forma de integrar e evoluir o planeta, regendo com sabedoria essa orquestra da qual somos músicos e maestros.
Além disso, a mudança nos exige muito além do desejo de mudar, da vontade de melhorar, afinal não são devaneios que alterarão os rumos de nossa história. Nossas relações tornam-se cada vez mais conflitantes e o mundo, aos poucos, definha. O gigante, abatido, deve ser reerguido, e a paz deve ressurgir soberana em meio a nossa convivência. A atitude, que implora atenção, precisa ser atendida por todos, que, de braços dados, farão renascer as esperanças há tempos esquecidas.
Então enlacemos as mãos. Devemos emudecer o pranto e fazer bradar o riso, ver o vento embalando e jamais destruindo e as mãos, que antes se negavam, agora devem vibrar unidas. Não deixemos que nossas quimeras se afoguem, que nossos sonhos desistam e que a orquestra desafine, o mundo quer dançar ao som de nosso empenho, não podemos parar o show. Ergamos a batuta e façamos o espetáculo!

João Otávio Cadó de Matos