"Os amigos que tens e cuja amizade já puseste a prova, engancha-os a tua alma com ganchos de aço." William Shakespeare

A responsabilidade de ser amado
É bem verdade que amar compete cuidados, doação cautelosa, curiosidade medida, inspiração regrada. Tem de ser jardineiro o amante: há de cuidar para que não seque o amor; ser prudente no rego, sem o encharque da flor; delicado no toque, para que não lhe caiam pétalas, não lhe consumam as aflições da dor; ser prudente no cheiro, sem tirar-lhe o calor. Enfim, há de ser zeloso no amor.
Ainda assim, maior compromisso é ser amado. Cuidar do amor dos outros é dever complicado. Há de ser mais cuidadoso e infindas vezes mais delicado. Há de ser mãe o amado: ter sempre um colo pra cria, nas tantas vezes ao dia quando lhe chega chorando, cansado; banhar sempre que preciso, mesmo se não lhe vem o riso, encoberto na sujeira em que é camuflado; cuidar de alguns machucados quando depois de alguns empurrões, jaz no chão, tombado. Enfim, mais zeloso há de ser quem tem do amor do outro o cuidado.
O que é dos outros te exige mais. És tu o responsável por um coração que no momento bate, mas basta o negares que o pulso logo se desfaz.
Tenho eu um amor desses. Um amor que, a meu modo, amo, mas me chora não podê-lo amar. Ele que me vem sempre em palavras, cheiros, imagens, e nunca se deixa tocar. Talvez nunca nos tenhamos, mas enquanto ele me ame, estarei eu por ele a olhar. Só peço a ele que viva, ame outros se precisar. Haverá ainda o dia em que os caminhos se encurtam, aí então ele me vem buscar.
Peço-te desculpas, amor que tenho, se não venha eu a roçar teus lábios, beijar-te do modo que desejar. Perdão que não acaricie tua face, não seque tuas lágrimas, não te aperte no peito na hora exata em que me clamar. Desculpa-me se te vá sempre em vocábulos, mas são eles verdadeiros, há vezes em que o vento os leva, nas outras não consegue chegar. Não sentir teu cheiro em ti, não ter contigo ao teu lado, não beber do canto por ti cantado é pra mim um triste pesar. Fazer nada junto de ti e assim ficarmos, como outros amantes, um com o outro, fazendo cócegas no ar. Entristecido fico por não sentir a dor que faz teu peito queimar.Enfim, perdão te peço, amor que tenho, se, a meu modo, amo-te e não posso te amar.
