
Há alguns passos estava o adulto. A gente grande que lhes era entre todas, a favorita. E os passos, sem que se pudesse contar, faziam-se cada vez menores. Se antes eram poucos agora se reduziam ainda mais. De um lado, nas alturas, era visível a pressa. Já do outro, quase que preso ao chão, nada além do deslumbre, fascínio e encantamento. Abaixo se alargava o riso que acima já se escondera há tempos. Nas mentes menores, mil desejos, que na maior cediam às obrigações. Eis que passa, como calafrio, o adulto pelos pequenos. Nada notara daquela infantilidade, como que ignorando a infância que um dia teve.
E há de ser tudo assim mesmo. Os anos que nos pesam na face nos pesam também nos sonhos, anseios, prioridades e reflexões.
Eis então que paramos, orgulhosos desses anos. Paramos a nos notar, a percebermos que a dor era muito menor quando podíamos lavá-la em pranto no colo de nossas mães.
Nos tocamos que as horas eram muito mais interessantes quando não as contávamos.
Notamos que economizávamos um tempão ao limparmos o nariz com a manga direita da blusa. Blusa que você mesmo escolheu, e não o mundo. Mundo que não passa da pracinha da esquina, mas que ainda assim é o maior e melhor do mundo.
Atentamos para o fato de que era muito mais legal quando víamos um “bichinho” ao invés de um artrópode pertencente à classe dos insetos.
Vemos que nossos inimigos da escola eram, na verdade, grandes companheiros se os compararmos aos nossos atuais colegas de trabalho.
Competir a um balanço era muito mais saudável que concorrer a um cargo na empresa ou brigar por uma vaga no estacionamento.
As histórias que nos eram contadas eram muito mais divertidas àquelas que os jornais nos trazem agora.
Sentimos que a bola torna-se chata quando transformada em esfera, e nos impressionamos ao descobrir que os homens também choram, até mais que as mulheres, ou ainda que só choram de verdade por causa de uma mulher.
Era muito mais prazeroso estudar o perfume e as cores das flores, do que ter de lhes analisar os mecanismos de reprodução. Reprodução esta que tirou o lugar da sementinha e da cegonha.
Confessamos que não era bom temer o bicho-papão, mas recear das pessoas que convivem conosco é, definitivamente, muito pior.
Lembramo-nos da felicidade que sentíamos ao saber que 1 maçã + 1 laranja = 1 piquenique com os amigos, e a comparamos com a indiferença de saber que o mesmo cálculo tem como resposta apenas 2 frutas, em geral transgênicas.
Desvendamos que um grito da mãe ou uma ralhada do pai, ainda que ruins, eram muito melhores do que a indiferença da pessoa que você mais ama no mundo.
Ao final, chegamos à triste conclusão de que fomos desencantados por nós mesmos. Na ansiedade de poder dirigir, beber, namorar, esquecemos da nossa criança. E agora ela nos fita encantada, e nós, nem para um beijo paramos.
Os adultos fazem de tudo para abandonar suas infâncias. Criam versões fajutas para o esconde-esconde e o pega-pega; vêem seus filhos como algo que têm, e não como aquilo que já foram; fazem questão de negar o Papai-Noel e o Coelhinho da Páscoa, além de achar tudo muito mais fácil do que roubar o doce de uma criança.
Chorem minhas crianças! Chorem porque um dia vocês serão exatamente assim, nem melhores nem piores. Verdadeiros monstros!